Belém — O primeiro turno das eleições de 2026 redesenhou o mapa político do Pará e deixou um cenário particularmente relevante para a disputa presidencial. Embora Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenha terminado na frente no Estado, o resultado mostrou uma forte expansão da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), sobretudo em áreas do interior ligadas ao agronegócio e ao eixo da BR-163.
No Pará, Lula recebeu 2,427 milhões de votos, ou 49,91% dos válidos, contra 2,164 milhões de Flávio Bolsonaro, 44,50%. A diferença foi de aproximadamente 263 mil votos. Os dois avançaram ao segundo turno nacional.
Belém mantém vantagem para Lula
Na capital, Lula também terminou à frente. Com 94,2% das seções apuradas, o petista registrava 47,80% contra 43,91% de Flávio Bolsonaro, numa fotografia que confirma a predominância relativa da esquerda na maior concentração urbana do Estado.
O resultado de Belém ganha peso estratégico porque a capital concentra uma parcela expressiva do eleitorado paraense e funciona como contraponto ao desempenho bolsonarista em municípios do interior.
Na disputa para o Senado, a capital apresentou uma configuração igualmente competitiva: Helder Barbalho (MDB) obteve 25,81% dos votos válidos e Delegado Éder Mauro (PL), 22,67%, segundo a apuração divulgada com base nos dados do Tribunal Superior Eleitoral.
Dr. Daniel vence a disputa pelo governo
A eleição estadual produziu uma das principais novidades políticas do Pará. Dr. Daniel (Podemos), prefeito de Ananindeua, foi eleito governador no primeiro turno, derrotando Hana Ghassan (MDB).
O TRE-PA informou que Dr. Daniel obteve 2.345.721 votos, equivalentes a 51,36%, enquanto Hana ficou com 2.125.084 votos, ou 46,53%. A totalização estadual foi concluída às 23h55 de domingo.
A vitória representa uma mudança importante no comando político estadual e deve influenciar a articulação das forças locais para o segundo turno presidencial.
Interior revela um Pará mais dividido
O resultado presidencial, porém, não foi homogêneo.
Em regiões do interior, especialmente no corredor da BR-163, Flávio Bolsonaro apresentou desempenho muito superior ao observado na capital. Em Novo Progresso, por exemplo, o candidato do PL chegou a 84,13% dos votos, e em dez municípios do eixo da rodovia no Pará e em Mato Grosso sua votação conjunta alcançou 75,3%.
O fenômeno indica que o Pará continua eleitoralmente dividido entre dois ambientes políticos distintos: de um lado, centros urbanos como Belém, onde Lula preserva vantagem; de outro, regiões do interior onde pautas relacionadas ao agronegócio, propriedade rural, segurança e crítica às políticas ambientais federais impulsionam a direita.
Essa divisão é particularmente relevante porque o avanço de Flávio ocorreu mesmo em um Estado que Lula voltou a vencer no primeiro turno. A Folha de S.Paulo classificou o movimento como parte de um avanço bolsonarista mais amplo na Amazônia Legal.
O olhar internacional
A eleição brasileira também recebeu atenção significativa no exterior. A imprensa internacional tratou a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro como um dos principais testes da atual onda de crescimento da direita na América Latina.
O New York Times, segundo levantamento da repercussão internacional feito pelo portal UOL, destacou que uma eventual vitória de Flávio representaria uma importante conquista para a direita latino-americana e poderia aproximar ainda mais Brasília de Washington. O espanhol El País também apontou o resultado como sinal do fortalecimento da direita, enquanto o britânico The Guardian classificou o desempenho eleitoral como uma noite particularmente difícil para a esquerda.
A Reuters, por sua vez, destacou que a eleição brasileira tem implicações para as relações com os Estados Unidos. Flávio Bolsonaro se apresenta como próximo de Donald Trump, enquanto Lula acusa o governo americano de utilizar instrumentos econômicos para pressionar o Brasil.
A dimensão internacional aparece também no próprio voto dos brasileiros residentes no exterior. Em diversos países Lula ficou à frente, mas Flávio Bolsonaro registrou vantagens expressivas em alguns locais, entre eles o Japão, onde teve 25.109 votos contra 5.567 de Lula.
Redes sociais: polarização continua sendo a marca
A leitura das redes sociais precisa ser feita com cautela: volume de publicações, curtidas ou compartilhamentos não equivale a intenção de voto, e não há, nas fontes consultadas, uma pesquisa científica de sentimento especificamente para o eleitorado paraense que permita transformar as redes em previsão eleitoral.
Ainda assim, os sinais disponíveis apontam para uma campanha de segundo turno fortemente polarizada. Um dos temas que ganhou força nas redes após a apuração foi a alegação de fraude provocada pela interrupção temporária da divulgação nacional dos resultados. O TSE esclareceu que houve uma falha no módulo de divulgação na internet, sem interrupção da apuração ou da totalização das urnas.
A disputa digital tende, portanto, a reproduzir dois sentimentos predominantes: mobilização defensiva entre eleitores de Lula e sensação de oportunidade histórica entre apoiadores de Flávio Bolsonaro.
A própria campanha lulista reconheceu a necessidade de mudar sua estratégia digital, especialmente para alcançar jovens e mulheres. Segundo a Reuters, o comando da campanha avalia que precisa conquistar parte dos mais de 9 milhões de votos dados aos candidatos derrotados e reduzir a abstenção, que chegou a cerca de 33 milhões de eleitores no primeiro turno.
Projeção para o segundo turno no Pará
A fotografia atual permite uma conclusão importante: Lula parte na frente no Pará, mas não tem uma vitória assegurada.
Sua vantagem estadual de cerca de 5,4 pontos percentuais é significativa, mas a distribuição geográfica dos votos importa mais que a média estadual. Belém e outros centros urbanos podem sustentar o candidato petista, enquanto o forte desempenho de Flávio no interior reduz a margem de segurança.
Para Lula, o caminho mais provável é preservar a vantagem na capital e ampliar a votação nas cidades médias, além de buscar parte dos eleitores que escolheram candidatos de centro ou de direita no primeiro turno. Para Flávio, a estratégia passa por transformar a elevada votação do interior em uma campanha capaz de reduzir a diferença na região metropolitana de Belém.
Há ainda um componente político estadual: a vitória de Dr. Daniel cria uma nova variável na formação dos palanques e alianças para a segunda rodada. O comportamento do grupo político do governador eleito poderá ter peso particularmente importante em municípios onde a diferença entre Lula e Flávio foi pequena.
Projeção: se os padrões do primeiro turno forem mantidos, Lula chega ao segundo turno como favorito no Pará, sobretudo pela vantagem em Belém e pela liderança estadual já estabelecida. Entretanto, uma migração relevante dos votos dos candidatos derrotados para Flávio, combinada com aumento da participação eleitoral e manutenção do forte engajamento digital da direita, poderia estreitar substancialmente essa vantagem.
O cenário mais plausível, portanto, é de Lula vencendo novamente no Pará, mas por margem menor do que a registrada no primeiro turno, com Belém funcionando como principal bastião petista e o interior como principal fonte de crescimento bolsonarista.
É uma projeção — não uma previsão eleitoral estatística. O segundo turno está marcado para 25 de outubro, e a campanha terá quase três semanas para alterar o quadro. O próprio TSE disponibiliza os resultados por Estado e município, além dos boletins de urna, permitindo acompanhar a evolução oficial da disputa.
Nota editorial: a análise de sentimentos acima é qualitativa. Sem uma base de postagens coletada, amostrada e classificada por metodologia transparente, não seria correto apresentar percentuais de “sentimento das redes” como se fossem pesquisa eleitoral.
