Relatório policial, cujo sigilo foi retirado pelo STF, descreve anotações e contatos do banqueiro do Banco Master nos dias que antecederam a Operação Compliance Zero, em novembro de 2025

A Polícia Federal detalhou, em documento cujo sigilo foi retirado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça na noite de quinta-feira (10), uma sequência de anotações e contatos atribuídos ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, nos dias anteriores à deflagração da Operação Compliance Zero. De acordo com o texto, o banqueiro teve conhecimento da operação antes de ela ser executada e organizou uma saída do país na véspera do cumprimento dos mandados.

 

O relatório integra as investigações do chamado caso Master e foi utilizado pela corporação como base para um novo pedido de prisão preventiva, assinado em 27 de fevereiro de 2026. Vorcaro havia sido preso novamente em março deste ano.

Segundo a PF, o conjunto de mensagens, notas e ligações registrado no período sustenta a avaliação de que o banqueiro acompanhava de perto o avanço das apurações. A corporação afirma que seria improvável que a viagem ao exterior marcada para a noite imediatamente anterior ao cumprimento dos mandados tivesse outro propósito que não a fuga.

A cronologia descrita no documento

O documento organiza os fatos em uma linha do tempo que começa em outubro de 2025. Em 21 de outubro daquele ano, conforme a PF, Vorcaro registrou no aplicativo de notas do celular os nomes de representantes da Polícia Federal que haviam participado de uma reunião reservada com o Banco Central. Para os investigadores, o registro indica acesso antecipado a informações de caráter sigiloso.

Em 16 de novembro, dois dias antes da operação, uma nova anotação atribuída a ele questionava a eventual proximidade de um terceiro com o juiz federal Ricardo Soares Leite, responsável por autorizar as medidas contra o banqueiro.

Em 17 de novembro, véspera da deflagração, os registros apontam uma sequência de movimentações ao longo do dia. Às 07h28, Vorcaro recebeu mensagens que o documento classifica como urgentes de seu advogado, Walfrido Warde. Pouco depois, às 08h48, informou que agendaria um voo com saída do aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Ainda pela manhã, a partir das 07h41, manteve conversas com o jornalista Diego Escosteguy sobre uma reportagem que seria publicada; após as 11h, recebeu o link da matéria e o repassou imediatamente ao advogado. No mesmo dia, conforme a PF, surgiram elementos de que ele divulgou à imprensa uma notícia envolvendo o Grupo Fictor.

Desde as 06h34 daquele dia, o banqueiro também trocava mensagens com servidores do Banco Central identificados como Paulo Sérgio e Belline. Segundo o relatório, os dois consideraram “fundamental” que ele falasse com o diretor da autarquia, Ailton Aquino. No início da tarde, a reunião foi articulada para o próprio dia: Vorcaro propôs o horário das 13h, Paulo Sérgio confirmou às 13h15 e Belline enviou o link de acesso às 13h35.

Naquela noite, as forças policiais interceptaram Vorcaro no aeroporto de Guarulhos, na Grande São Paulo. Para a PF, não havia dúvidas de que ele pretendia deixar o país. Em 18 de novembro, a Operação Compliance Zero — fase I foi oficialmente deflagrada, após decisão judicial favorável ao pedido das autoridades.

A conclusão da PF

No documento, a Polícia Federal sustenta que o banqueiro, ciente da iminente atuação policial, recorreu a servidores do Banco Central que lhe eram subalternos — em razão, segundo a corporação, do pagamento de vantagens indevidas — para forçar uma reunião virtual no dia imediatamente anterior à operação.

O relatório afirma haver “fortes elementos indicativos de condutas de Daniel Vorcaro e associados direcionadas a proteger o núcleo dirigente da organização criminosa, mediante conhecimento antecipado de atos processuais e articulações com interlocutores em órgãos de controle, ao lado de planejamento logístico para saída do país”. A PF acrescenta que esse conjunto, somado a procedimentos internos, compõe o retrato dos “tentáculos” da organização em estruturas públicas e privadas.

Soltura e nova prisão

Cerca de dez dias após a operação, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região determinou a soltura de Vorcaro e de outros quatro executivos do banco. De acordo com a PF, um dos argumentos favoráveis à liberdade do banqueiro foi justamente o teor da reunião realizada com o Banco Central no dia anterior à operação.

As informações reunidas no relatório embasaram o novo pedido de prisão preventiva apresentado em 27 de fevereiro de 2026. Em março deste ano, o banqueiro foi preso novamente.

By FFN

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *